www.odovidro.com

 

Últimas      3H de Resistência - Leiria 2010
Imprimir esta páginaAcrescentar aos Favoritos
                                                                              
Leiria Downtown”...

As “3H de Resistência Nocturna em Leiria” são talvez uma das mais originais provas do panorama nacional, oferecendo a quem quiser a possibilidade de sentir um pouco daquilo que um atleta de DH/U sente, mas sem ser apenas a descer, pois os 80m de subida acumulada por volta num circuito com pouco mais de 5 klms já não agradariam tanto a um Steve Peat, mas fazem as delícias de qualquer “BTTISTA” de XC/Maratonas que goste de desafios.

Além disso, a possibilidade de rolar a alta-velocidade pelo meio de um Centro Histórico de uma cidade estando este completamente bloqueado para o evento é rara, e de aproveitar.

E foi exactamente isso que o Tiago fez pelo 3º ano (ele já acompanha esta prova desde a sua criação), como representante da “Ó” DO VIDRO nesta corrida louca pelas ruas da cidade.

Ele foi o único do Grupo Desportivo da “Ó” DO VIDRO que participou este ano no evento, mas não esteve sozinho, pois fez-se acompanhar pelo amigo Luís, que também participou, e pelos seus pais que grande ajuda deram na zona de assistência.

Após comerem uma “bucha” por volta das 18h, e de terem percorrido algumas voltas para aquecer e reconhecer o percurso, o Tiago e o Luís colocaram as Bikes dentro do parque fechado após estas terem sido devidamente marcadas pela organização, já que era proibida a troca das rodas (e da bicicleta em si) durante a prova.

Já bastante perto das 21h (hora de início da prova), os atletas foram encaminhados para junto das suas montadas dentro do parque fechado, saindo depois em filas organizadas por ordem de dorsal para o arco da partida/meta.

É uma prova muito exigente, rápida, e perigosa, e notava-se na cara de todos alguma expectativa...

-“Como será que funciona este percurso com tanta gente...?” – Seria com certeza a pergunta na mente de muitos assim como na cabeça do Tiago.

Uma das inovações para 2010 face a 2009 foi o facto do sentido do percurso ter sido invertido, pelo que agora uma das descidas mais escuras e perigosas se tinha tornado por exemplo numa subida, mas de forma geral a prova parecia ter-se tornado mais rápida, com a chegada a algumas descidas e degraus a ser feita já por ruas com alguma tendência descendente e não via trajectos a subir.

Mais do que inovação, mas sim alteração, foi a extensão das inscrições até às 300 unidades, pelo que seriam muitos a disputar as melhores trajectórias nas estreitas ruas de Leiria.

3...2...1....e PARTIDA!!

O calibre dos participantes nos eventos da AIRBIKE é sempre muito elevado, não estivessemos a falar da Zona Centro do país, e de um conjunto de provas englobadas num Troféu.

Não foi então de estranhar que o ritmo tenha sido logo BRUTAL desde o início.

A primeira volta seria ligeiramente diferente das restantes pois de modo a “extender” o pelotão os atletas foram levados por uma das avenidas principais de Leiria, evitanto a primeira subida junto à Sé, e criando a oportunidade de rolar forte durante os primeiros metros.

O som dos pneus cardados a rolarem em calçada era emocionante, e começavam as primeiras razias entre atletas com algumas trajectórias mais arrojadas a levarem a travagens mais agressivas.

Pedalando forte no meio da multidão, o Tiago tenta “chegar-se” um pouco mais para a frente de modo a evitar os engarrafamentos que por norma surgem mais atrás, mas tentanto ser cauteloso pois não queria cair logo no início.

Mas mesmo assim isso foi impossível, pois logo que chegou à  primeira subida estreita (a tal zona escura que em 2009 era uma descida) alguém desmonta, e foi o caos...!

Ouvem-se por todo o lado o som dos cleats a desencaixarem dos pedais, e, enquanto os atletas evitam bater uns nos outros, desmontam e começam a correr.

Eram só uns metros, mas a pique, e assim que se viu fora da bicicleta o Tiago correu até ao topo de modo a encontrar “terreno firme” onde se conseguisse montar na bicicleta, e prosseguir. Assim que a confusão amainou voltou à sua bike, mas ainda não tinha acabado a subida.

O Sol punha-se em Leiria, e os atletas estavam agora num troço com uma tendência ainda ascendente em direcção à zona alta do Castelo.

É então que o percurso (já de alcatrão) endireita repentinamente, e umas quantas pedaladas mais fortes permitem aumentar rapidamente a velocidade até ao “gancho” à esquerda que obrigava a uns toques de travaão, mas não demasiados, pois era possível cortar a curva por dentro junto à esquina, evitanto o empredrado da berma. Foi isso que o Tiago fez, mantendo-se na zona de alcatrão “limpo”.

Agora era possível acelerar pela descida, sendo o percurso delimitado à direita por barreiras de protecção, mas os riscos começavam a aumentar.

O grupo seguia muito compacto e todos queriam ser os primeiros a chegar ao final da descida onde existia um forte “gancho” à direita, mas aqui o alcatrão dava lugar à calçada (escorregadia) existindo ainda uma espécie de “bossa invertida” que formava um buraco no interior da curva.

Conseguindo esgueirar-se até onde queria, o Tiago trava de forma doseada com os dois travões evitando com que as rodas entrassem em bloqueio e escorregassem, e inclina o seu corpo para o interior da curva sempre sem deixar de pedalar.

É então que o seu pedal direito (que já seguia junto ao chão) roça nesse buraco, deixando a ideia de que mais uns milímetros e a pancada teria sido maior podendo ter levado a uma queda.

Sem pensar muito nisso, o rapaz da “Ó” DO VIDRO concentra-se na sequência de curvas seguintes que nada mais eram do que um “S” composto por duas esquinas estreitas as quais eram percorridas a alta velocidade e que desenbocavam numa longa e íngreme subida.

O truque era não travar e reduzir quantas mudanças fossem precisas, pois entrar com a mudança demasiado “pesada” naquela subida poderia fazer com se perdesse o ritmo e o “gás”, necessários para subir rapidamente aquela picada.

Já no topo (onde algum do muito público presente por todo o lado via o esforço dos atletas e os incentivava) a curva era à direita, e o percurso seguia por cima do passeio, o que fazia com que existisse apenas a largura do mesmo entre as barreiras de protecção à esquerda, e um muro alto de pedra à direita. Mas a emoção encontrava-se a cada esquina, e ali nada mais era do que um sólido poste de iluminação à direita que se tornava um obstáculo perigoso numa zona em que as velocidades aumentavam.

Tendo estudado a situação nas voltas de reconhecimento, o Tiago ganha o seu espaço à esquerda de modo a evitar o poste, traçando depois uma trajectória para a direita, passando por baixo de um pequeno arco, e pedalando cada vez mais forte numa zona muito rápida de paralelos.

Mas toda a velocidade terminava abruptamente com um apertadíssimo gancho à esquerda seguido de um lance de escadas em bastante mau estado.

Era uma das zonas mais perigosas mas divertidas do percurso.

Sentindo a adrenalina, o Tiago sai da roda do atleta da frente e trava mesmo no limite para conseguir entrar nas escadas sem ninguém à frente.

Ele chega o corpo para trás, e deixa a inércia fazer o resto mas em frente havia um muro, e por isso era necessário controlar a velocidade e curvar à esquerda para uma ligeira subida a qual era facilmente dominada pedalando em pé, e tendo a corrente na pedaleira do meio e algures no quinto carreto da cassete atrás.

Como a curva no topo dessa ligeira subida era um pouco apertada foi por vezes necessário algum “chega para lá”, mas apesar de cuidadoso o Tiago não se safou de pelo menos uma vez ter falhado a trajectória ideal, e ter sido “chegado para lá”...!

Um pouco mais à frente aproximava-se rapidamente mais um lance de escadas, este muito espaçado, o que com a velocidade representava fazer o último degrau quase como se tratasse de um drop que levaria a um pequeno “voo” que conforme a inspiração poderia ser de pelo menos 1 metro.

Os participantes estavam agora a chegar à zona baixa do Centro de Leiria, e o mais puro espírito do DH estava presente nas razias que eram feitas nas estreitas e rapidíssimas ruas daquele local, com todos a disputarem agressivamente a tabela classificativa. E se havia que dar espectáculo ali era um dos sítios ideais, já que o público era imenso e transmitia uma enorme energia com todos os gritos de apoio que se ouviram durante as 3H. Fantástico!!

De facto, o Tiago sentiu ainda mais este ano que participava num qualquer evento internacional da UCI, pois embora um Sauzer esteja acostumado a ter público a “puxar” por ele, as tiradas para os “betetistas” nacionais costumam ser bem mais solitárias...

Embora a meta estivesse à vista a volta ainda não estava terminada, e era agora que as zonas rolantes iam começar.

O troço junto do Rio Lis foi espectacular já que durante algum tempo os atletas cruzavam-se com quem já estava em direcção à meta.

O ritmo era tão diabólico que o som de centenas de participantes a cruzarem-se fazia lembrar o som abafado de carros numa autoestrada, tudo isto enquanto as festas dos Santos Populares decorriam na margem oposta e a música popular enchia o ar com as suas vibrações.

Pedalar de forma tão brutal ao som do “Aperta aperta com ela...”, enquanto centenas de pequenas luzes brancas e vermelhas criam sombras estranhas e brilhos intensos pode ser uma das experiências mais alucinantes que alguns dos participantes já sentiram.

Foi isso que o Tiago achou, pois tantos estímulos num corpo já cansado comandado por um cérebro focadíssimo em manter tudo sob controlo, poderiam levar a distracções e reacções mais lentas, como por exemplo, não evitar um dos vários bancos de jardim que passavam despercebidos no meio da confusão, até porque não estavam muito bem assinalados...

Este ano não era preciso pedalar quase até ao estádio porque o o rio era atravessado duas vezes, a última bem mais atrás do que o percurso original.

Já em direcção à meta, as rectas enormes levavam a que se formassem vários “comboios” compostos por dezenas de atletas, como se de um pelotão desvairado da Volta à Portgal se tratasse!

A dada altura o próprio Tiago se vê à cabeça de um deles, concluindo que estava a “puxar” e a cortar o vento a pelo menos 7 tipos que tentavam chegar ao último lance de escadas antes da meta primeiro que ele.

Não faltaram as vuvuzelas neste evento, e sempre que alguém descia as escadas ecoava esse som tão singular por toda a Leiria...

A aproximação às escadas da vuvuzela era feita a alta velocidade, sem qualquer zona de abrandamento, o que fez com que fosse necessário algum bom senso na abordagem das mesmas, nomeadamente reduzir bastante o ritmo sob pena de se voar para cima do público.

Aguentando o pelotão atrás de si, o Tiago opta por traçar uma trajectória oblíqua que lhe permitisse curvar logo à direita, mais arriscado pois poderia facilmente escorregar, mas bem mais funcional do que apenas começar a curvar depois de descer as escadas.

Seguia-se uma espécie de “gincana” pelo meio do jardim, e depois a recta da meta a qual antecedia a passagem por baixo do arco do antigo edifício do Banco de Portugal, e de novo a subida da Sé.

O rapaz da “Ó” DO VIDRO aguentou-se bem durante toda a prova, assim como o seu amigo LuÍs, que apesar da estreia neste evento de resistência conseguiu fazer 9 voltas, tendo sido dobrado algumas vezes pelo Tiago que acabou com 12, mais uma do que em 2009.

Mas foi já nessa 12ª volta que o Tiago assiste a uma queda como nunca tinha visto.

No final da subida da Sé iniciava-se uma recta com uma uma tendência ligeiramente descendente. Do lado direito existia um pequeno muro talvez com cerca de 1 metro de altura e por baixo (cerca de 2 ou 3 m abaixo) uma outra rua coberta de calçada.

Um atleta do grupo da frente que dobra o Tiago inicia um sprint, mas eis que se distrai e olha para trás alterando a trajectória original, o que o coloca precisamente em direcção ao pequeno muro.

Mas o Tiago apenas se apercebe disso quando ouve o impacto, pois também ele não estava a olhar em frente mas sim para o chão. Apercebendo-se que qualquer coisa iria rapidamente correr mal, ele olha e vê incrédulo o atleta a fazer um “mortal” pelo ar trazendo consigo a bicicleta cujas luzes iluminam primeiro o chão, depois o céu, tudo enquanto o atleta grita e ainda se tenta agarrar ao muro e.....desaparece...ouvindo-se de seguida um estrondo imenso!

Pensando que uma verdadeira trajédia tinha acabado de acontecer, o Tiago pára gritando para alertar os membros da organização que estavam no início da rua onde o participante tinha ido parar.

Incrivelmente este encontrava-se sentado com a bicicleta a seus pés apenas como se tivesse parado para descansar.

Visivelmente em choque ele apenas diz “Ai!”, como que se apercebesse que deve estar um pouco maltratado.

Felizmente nada de muito grave aconteceu, ficaram ainda assim algumas mazelas e pelo menos uma ida ao hospital, mas tudo poderia ter sido bem pior.

Vendo que a situação estava controlada, o Tiago arranca então para cumprir a última volta. Já tinha passado da meia-noite, as 3h tinham acabado e agora bastava chegar ao fim.

Acabou por ser extra cuidadoso nas zonas mais complicadas pois aquele acidente não lhe saia da cabeça, mas foi talvez nessa volta onde terá cumprido o menor tempo nas zonas rolantes junto ao Rio Lis.

Quem não viu nada disso foi o Luís, que ao aperceber-se que faltavam apenas 2m para as 12h da noite, e que 9 voltas já lhe chegavam, decide cruzar a meta e entregar o chip, só que isso fez com que fosse desclassificado já que ao ter passado pela meta fez com que o sistema contasse o início de uma volta que nunca foi terminada, resultado, foi dado como desistente...

Uns minutos depois chega o Tiago, e estavam cumpridas mais umas 3H de resistência.

Nota muito positiva este ano para a entrega dos chips a contrastar com o ano anterior. Umas quantas filas ordenadas por número de dorsal e tudo ficou despachado em pouco tempo!

Sem dúvida originais, sem dúvida exigentes, e sem dúvida muito divertidas, as 3H de Resistência são uma prova do calendário da “Ó” DO VIDRO.

E tal como terminou o rescaldo das 3H de 2009...”ATÉ PARA O ANO LEIRIA!”