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De Lisboa a Fátima – Um dia a andar de BIKE...
Já tinham havido conversas entre alguns membros da “Ó” DO VIDRO sobre a possibilidade de se pedalar até Fátima, mas o foi o Diogo quem acabou por tomar a iniciativa final de organizar a ida, marcando um dia, sacando o track GPS, e estudando um pouco sobre as dificuldades que esperavam quem resolvesse alinhar nessa aventura.
Lançado o apelo, o Lopes e o Tiago alinharam de imediato, e foram eles que juntamente com o Diogo arrancaram de Lisboa no dia 5 de Junho de 2010.
Ainda não passavam 15 minutos da 6 da manhã e já o Tiago estava à porta do Lopes, arrancando depois em direcção a Sete-Rios onde o Diogo já os esperava.
O track GPS iniciava-se no Parque das Nações em frente ao Oceanário, mas para eles o desafio já tinha começado pois todos sairam de casa a pedalar.
O “Caminho do Tejo” como é conhecido liga Lisboa a Fátima, mas é também uma etapa de um percurso bem maior que se extende até à Cidade de S. Tiago na Galiza.
Destinado essencialmente a peregrinos, este caminho foi criado exactamente para a comodidade dos mesmos, tendo nascido pela mão do CNC (Centro Nacional de Cultura) como parte de um plano de criação de rotas de peregrinação alternativas às grandes estradas nacionais, sempre bastante perigosas e poluídas para quem se desloca nelas a pé, ou em qualquer outro veículo que não um carro ou uma mota.
O resultado foi um percurso composto por trilhos bastante belos, caminhos milenares, estradas pouco movimentadas, e ainda assim uma ou outra estrada nacional.
Estando marcado por setas pintadas de azul, e pequenos marcos com azulejos, os primeiros sinais começam logo na zona de Sacavém com a passagem por cima do Rio Trancão e entrada nos primeiros trilhos fora de estrada.
E foi logo ali que os rapazes apanharam um susto!
Entusiasmado com uma égua, um cavalo não achou piada a ter sido interrompido por 3 marmanjos vestidos com equipamentos vermelhos cheios de “Ó”s, e resolveu investir!
Seguindo na dianteira, o Diogo acaba por ser evitado, e foi o Tiago que acabou por ter que acelerar para evitar o bicho que parecia começar a correr a trote a qualquer momento, isto enquanto tentava abocanhar a sua camel back.
Uma vez que estava mais para trás, e para evitar ser o próximo a ser alvo da atenção do cavalo que parecia querer defender aquele pedaço de terreno de forma aguerrida, o Lopes pára, e só lançando algumas pedras consegue fazer com que o animal se afastasse minimamento do caminho.
Ultrapassado o precalço, os rapazes continuaram em bom ritmo através de estradões e caminhos que os levariam para perto do Tejo, e da linha do Norte, a qual haveriam de cruzar várias vezes de um lado para o outro conforme o track e as setas os guiavam.
Foi numa dessas passagens por cima da linha do comboio, em Sacavém, que foi feita a primeira pequena pausa para beber um café e comer um pastel de nata.
A partir dali o caminho era bastante fácil e agradável, principalmente os klms que foram feitos na recente ciclovia que liga Alhandra a Vila Franca, sempre ao lado o Tejo, e já com a Ponte de Vila Franca no horizonte.
Após cruzarem essa cidade, não demoraram muito até chegarem à Central Termo-Eléctrica do Carregado, mas foi exactamente o troço desde Vila Nova da Rainha (um pouco mais à frente desse ponto de referência) até à Azambuja que seria um dos mais aborrecidos, pois foi necesário efectuar alguns klms pela Nacional 3, sempre muito perigosa com as centenas de camiões que a percorrem diáriamente.
Já na Azambuja, os rapazes da “Ó” DO VIDRO atravessaram novamente a Linha do Norte em direcção a uma pitoresca estrada ladeada por árvores altas que proporcionavam uma sombra refrescante num dia que havia-se tornado bastante quente.
-“Já há comida?” – Grita o Diogo para algumas pessoas que se preparavam para começar um piquenique num parque de merendas ao lado da estrada.
É que já se comia qualquer coisa, porque o corpo não se alimenta só de barras e os klms começavam a acumular-se nas pernas.
A partir dali o track levou-os de novo para um estradão rural pelo meio das enormes plantações típicas do Ribatejo, mas apesar de todo o caminho estar muito bem marcado até então, os rapazes deram por si no meio de uma plantação, já que o caminho parecia ter sido lavrado pois desaparecia de forma misteriosa.
Acabaram por encontrá-lo rapidamente, mas ele encontrava-se bastante fechado, parecendo mesmo que já não era percorrido por ninguém há bastante tempo. No entanto, o Inverno rigoroso que fez crescer imenso as plantas e flores aliado a um solo fértil poderá explicar o facto do caminho estar completamente coberto de vegetação naquele ponto.
De novo em alcatrão, a segunda pausa chegou com a pequena aldeia chamada Reguengo, onde os aventureiros se referescaram com uma Coca-Cola num pequeno café, onde um habitante local também se refrescava com duas médias....tudo bem, não fosse pouco mais do que 10h da manhã!
Um dos locais mais pitorescos por onde tiveram oportunidade de passar foi a aldeia de Valada, uma pequena localidade nas margens do Tejo marcada pelo dique de protecção que a protege das águas do Rio, um sinal que a convivência entre ambos nem sempre é pacífica.
Foi a seguir a essa aldeia que se cruzaram com uma peregrina que caminhava completamente sozinha.
-“Fátima?” – Pergunta o Diogo.
-“S. Tiago.” - Respondeu ela com sotaque indiciando que não era portuguesa.
Impressionante, pois não só ela terá que percorrer largas centenas de klms (senão mesmo mais de 1000...) como parecia que o iria fazer sem mais ninguém!
Desejamos-lhe a melhor sorte! Um verdadeiro espírito aventureiro!
Não menos impressionante seria o próximo encontro que teriam já bem perto de Santarém.
Correndo lentamente na berma da estrada, acompanhada por um ajudante de bicicleta, uma senhora que poderá ser definida como “de idade” também tinha Fátima como destino. Não só isso já é um desafio por si, como ficaram a saber que ela o pretendia fazer apenas num dia, e como também saberiam mais tarde por outros atletas que encontrariam vários klms mais à frente, ela pertencia a uma corrida que cuja partida tinha sido dada às 0h de Sábado no Parque das Nações.
Um desafio extremo e apenas acessível a alguns!!
Contentes por pelo menos terem uma bicicleta para pedalar, os rapazes da “Ó” DO VIDRO iam agora começar as verdadeiras subidas, pois já estavam em Santarém e tiveram que subir para lá chegar!
Como ainda faltava algum tempo para as 13h, optaram por pedalar até ser mais perto dessa hora embora corressem o risco de não acharem nenhum restaurante por essa altura.
No entanto tudo correu de feição, e foi num pequeno lugarejo chamado “A D’VAGAR” que encontraram um restaurante com um nome bastante sugestivo. “O Panturras” seria o restaurante onde passados mais de 100 klms os aventureiros do “Ó” iriam recuperar algumas forças e gozar de um já merecido descanso.
Estava tudo a correr muito bem e ainda nem era uma da tarde!
O pior estava no entanto para vir, e foi já com as febras no estômago e o Sol forte por cima deles que iniciaram de novo a marcha em direcção a Fátima, já com as dificuldades existentes na zona a Praia Fluvial de Olhos de Água (a nascente do Rio Alviela) em mente. O Diogo havia alertado, e tinha toda a razão porque em pouco tempo tiveram que subir largas centenas de metros, o que se traduzia em grandes “picadas” cheias de pedra solta que dificultavam ainda mais a marcha.
E as serras que se atravessavam à frente dos aventureiros impunham respeito, pois as setas e os marcos que marcam o Caminho de Fátima apontavam cada vez mais para elas...não havia volta a dar, e teriam que aguentar a inclinação crescente.
A pequena aldeia de Covão do Feto fica já ficava nem alto, e era um pouco mais acima que o caminho complicava para quem levasse uma bicicleta.
Desenhado originalmente para peregrinos a pé, o caminho transformava-se num íngreme singletrack coberto de rochedos fixos e soltos, assim como “lascas” de pedra que soavam a mosaicos partidos quando pisadas pelos cleats dos ténis de encaixe.
Tudo isto tornava a subida impossível para se fazer a rolar (mas muito apetecível caso se visse a mesma como uma descida!) o que originou uma alternativa para quem pedala (devidamente assinalada com setas e placas) que orientava os ciclistas em torno do obstáculo em causa.
Mas como já ficou demonstrado noutras ocasiões, a malta do vidro é rija, e como o próprio track indicava que se continuasse pelo trilho original, foi mesmo isso que eles fizeram com as respectivas consequências.
Assim, tiveram que carregar as suas montadas durante pelo menos um klm bem complicado sendo muitas vezes necessário “escalar” algumas pedras. Como se todas as horas a pedalar que já tinham em cima não fossem suficientes...
Mas ninguém disse que não haveria penitência!
Pelo menos a vista compensava bastante, inclusive a que havia no topo, onde após terem conversado com alguns peregrinos iniciaram uma ansiada descida que os levaria até Minde, onde teriam de novo que subir até aos cabeços de Sobreiro e Marvila, acima de dos 400 metros. Locais ventosos cobertos de moinhos eólicos.
Essa seria das últimas dificuldades pois assim que entraram na última secção de alcatrão tudo o que tiveram que fazer foi descontrair e rolar até ao final.
O Santuário de Fátima estava muito perto, e não demorou muito a chegarem muito felizes por tudo ter corrido bem naquela viagem.
Tinham-se passado 166 klms e era altura de tirar a foto de grupo, descansar e saborear o momento....ou não.
Uma vez que foram em total autonomia teriam que voltar de comboio, mas isso representava ainda pedalar até à estação que não é propriamente perto.
Após se informarem do caminho a seguir, a única boa notícia era a de que a maior parte do trajecto seria feito a descer, algo muito positivo para 6 pernas já cansadas.
Até Ourém tudo foi relativamente fácil, mas a partir dali ainda teriam que subir durante algum tempo, o que já estava a fazer alguma moça numa altura em que também estavam, supostamente, pressionados pelo tempo, pois o comboio passaria na estação pouco depois das 19h.
Pedalando furiosamente até ao final, os rapazes da “Ó” DO VIDRO chegaram à estação muito antes disso com cerca de 194 klms percorridos desde que sairam das suas casas em Lisboa.
Tudo isto para descobrir que na verdade teriam que esperar quase até às 20h pelo primeiro de 3 comboios que teriam que apanhar para chegar até casa.
Foi épico, por vezes doloroso, mas muito gratificante e divertido!!
Podendo ser visto ou não como uma peregrinação, e afastando a base religiosa associada ao local de destino, trata-se de um percurso muito interessante e que vale a pena fazer de novo!!
Foi mais uma aventura para a “Ó” DO VIDRO!!!!!! |