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Últimas      Maratona do Centro - Leiria 2010
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Dia negro…

 

Este poderia ser o início de mais um rescaldo como qualquer outro, onde poderia começar por fazer alusão ao facto de ainda ser noite quando saímos de Lisboa, ou outro aspecto com certeza muito menos importante do que aquele que vou referir.

O Grupo de BTT da “Ó” DO VIDRO deseja as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do atleta que perdeu a vida na Edição de 2010 da Maratona do Centro-Leiria.

O dia 21 de Março de 2010 tornou-se um dia negro para o BTT Nacional com a perca de uma vida em plena prova, fazendo-nos reflectir sobre a nossa própria existência, e a fragilidade do nosso ser.

Nada fazia prever o que se iria passar, já que a manhã começou animada com 880 atletas alinhados à partida, muitos deles federados (esta prova foi pela primeira vez integrada no Campeonato Nacional de XCM) mas todos ansiosos por poderem rolar nos trilhos encadeados pela Airbike, que pelas experiências que já proporcionou em eventos anteriores, só poderia ter criado uma grande Maratona.

Da “Ó” DO VIDRO marcaram presença o Tiago (pelo 2º ano consecutivo) e o Filipe, acompanhados pelo amigo Luís, sendo que o primeiro tomou como objectivo o cumprimento dos 75 klms da Maratona, enquanto que os últimos preferiram a meia-maratona, composta por 40 lamacentos klms.

O percurso era comum nos primeiros 20 klms, mas também nos últimos 20 (para quem fizesse os 75) já que o circuito cumpria a forma de um “8”, e o que todos descobriram logo de início, é que fosse qual fosse a distância escolhida, ela iria ser dura, muito dura!

Os participantes partiram em sectores (divididos por número de dorsal) encabeçados pelos federados, e as dificuldades começaram logo assim que o alcatrão acabou e foi substituído por uma pasta lamacenta cheia de caruma de pinheiro, pequenos ramos e também algumas folhas de eucalipto.

O pelotão compacto não permitia grandes velocidades, e algumas subidas mais íngremes e escorregadias fizeram com que muitos desmontassem criando grandes engarrafamentos, ou marchas lentas, enquanto os atletas enterram profundamente os pés na lama, e tentam arrastar as suas bicicletas encosta a cima.

As poças existentes de quando a quando começavam já a deixar as transmissões sem lubrificante, e o som da areia a ser triturada pela corrente e carretos começava a ouvir-se.

Rapidamente, o Tiago que tinha estado presente em 2009 percebeu que estava perante uma maratona muito diferente, e o cansaço provocado pelos poucos klms percorridos eram a prova de que a gestão teria que ser bastante mais complexa.

Por essa altura já andava “picado” com alguns participantes, mas achou que talvez fosse compensatório abrandar o ritmo, e assim fez.

A chuva intensa que caiu nos dias anteriores à prova tornou o percurso muito perigoso, mas após as subidas desgastantes com os pneus sempre a resvalarem nas pedras lisas e molhadas (e na própria lama), existiam algumas curtas mas técnicas descidas, que provocavam intensas descargas de adrenalina. Era acertar no trilho, traçar uma linha pelo meio de um espaço menos enlameado, ou perder o controlo, escorregar e cair, pelo que nem as descidas proporcionavam momentos de descanso.

A verdade foi a de que após os primeiros 20 klms já o desgaste era óbvio, e o Sol quente com que o S. Pedro nos brindou no primeiro dia da Primavera também não ajudou, já que a perca de líquidos foi imensa.

Mas era ali (em Chainça) a divisão, logo a seguir à Z.A., e se os federados não tinham outro remédio senão rumar para os 75 klms, para os não federados havia a hipótese de ainda tomarem uma decisão, rumar de novo a Pousos, ou pedalar durante mais umas horas.

Se ouve muitos que mudaram de ideias ao longo da primeira secção do percurso, alguns como o Tiago mantiveram-se fieis aos planos iniciais e rumaram para a Maratona, enquanto que mais atrás, o Filipe e o Luís já ansiavam pelos últimos 20 klms.

Mas o pior estava para vir, e a Aibike fez questão de criar um desafio aos amantes do BTT, levando-os por trilhos fantásticos, mas cujo pagamento para serem percorridos seria o dispêndio de todas as energias existentes nos corpos dos atletas.

Como tal todo o cuidado era pouco, e com as reacções a ficarem mais lentas, as hipóteses de sofrer uma queda eram cada vez maiores, tal como o Tiago pode comprovar numa descida coberta de pedras soltas, onde dois participantes em pontos diferentes da mesma esperavam já ajuda por parte da organização, revelando ferimentos provocados por quedas que os iriam impedir de continuar em prova, sendo o hospital o seu destino.

Não iriam assim subir ao topo da Serra da Maiunça, que se impunha já na paisagem com os seus 435 metros de altura.

Durante 2 klms os participantes subiram 265 metros, num estradão composto essencialmente por gravilha branca, e se a tracção não era um grande problema, a inclinação épica sim, pois em não existia um fim no horizonte, e cada pedalada estava a tornar-se cada vez mais dolorosa.

Alguns optaram por seguir à mão, outros pedalaram enquanto conseguiram, mas o ritmo de todos era igual. Baixo…!

Mas a paisagem era maravilhosa, e quase que fazia esquecer todo o esforço necessário só para estar ali.

No entanto, ainda só tinham sido deixados para trás 31 klms, e era altura de aproveitar a curta mas íngreme que se seguia para tentar descomprimir um pouco, embora na mente de todos já estivesse o pensamento de que aquilo apenas poderia significar uma coisa, mais subidas!

A segunda Z.A. estava colocada perto da aldeia de Perulheira, e foi lá que um já muito cansado Tiago perguntou como era o terreno na fase seguinte.

-“Eh pah, há já aqui uma subida já a seguir, isto não fica muito mais fácil, mas o pior já passou…!” – respondeu um membro da organização.

“Sofrimento” é a palavra usada para descrever os klms que restavam, pois se de facto a pior subida já tinha passado, outras haviam que deixaram a sua marca, e faziam pensar “Mas quando é que isto acaba?”.

O BTT é uma modalidade muito exigente física, mas também psicologicamente, pois é preciso manter o espírito forte e não vacilar com as dificuldades, mesmo quando estas parecem não parar de se suceder. É necessário não perder a concentração, e manter a força anímica pensando não naquilo que ainda falta percorrer, mas naquilo que já foi deixado para trás.

Talvez por isso, e após passar um mau bocado durante 30 klms, o Tiago aumentou de novo o ritmo, e chegado à última Z.A. (que na verdade foi também a Z.A. 1) só já conseguia pensar em chegar a Leiria rapidamente e tomar um banho que lhe tirasse os quilos de lama que tinha em cima.

Mas eis que chega algum terreno familiar. À sua frente estendiam-se os klms de “singletracks” que havia percorrido em 2009, uma das poucas secções do percurso que foram aproveitadas para a edição de 2010.

Se no ano passado esses trilhos foram percorridos em alta velocidade, este ano serpentear pelo meio do mato cerrado era bastante mais difícil, já que a lama existente não só dificultava o andamento nas zonas mais lentas, como tornava extremamente perigosas as zonas mais rápidas. A juntar a isso o terreno já se encontrava completamente “cavado” pelas centenas de atletas dos 40 e 75 klms que já haviam passado no percurso anteriormente.

O Luís foi um desses atletas que apesar de estar a fazer o circuito menor, acabou mesmo por ser ultrapassado pelo pelotão que seguia na frente da Maratona de 75 klms, cujo ritmo era tão alto que “até faziam vento” segundo as suas palavras.

Por outro lado, o Filipe não só foi ultrapassado pelo grupo da frente, como por uma grande fatia dos participantes do circuito mais longo, já que algum tempo sem andar de bicicleta lhe retirou algum ritmo.

O Tiago quase que foi um deles, já que “apenas” chegou cerca de 30 minutos mais tarde, o que considerando que fez mais 35 klms acabou por ser foi muito pouco.

Mas chegaram todos bem, sem qualquer tipo de ferimento ou lesão, o que numa prova marcada por vários incidentes graves foi sem dúvida uma vitória.

Os rumores que começavam a gerar-se na zona de meta e nos balneários acabaram por se confirmar, e havia de facto falecido um atleta, além de uns quantos que foram parar ao hospital.

Foi assim uma prova cheia de ambiguidades…por um lado extremamente dura e desgastante, mas por outro um desafio que deu gozo ser superado, sempre com paisagens belas e naturais como pano de fundo. Os trilhos técnicos foram imensos, e apesar de terem provocado uma enorme dose de divertimento, também levaram a alguma reflexão sobre os riscos que por vezes se correm neste tipo de coisas.

Ver colegas maltratados no chão, torna-nos conscientes dos perigos, mas pode levar a desconcentrações que podem ser fatais, pelo que é necessário afastar esses pensamentos durante a prova.

Mas a vida é mesmo assim, fugaz, e frágil, e por isso mesmo não valerá mais a pena continuar a desfrutá-la no limite…?

Até à próxima aventura….!