De Troia a Sagres são só 200 klms...
Ano após ano o interesse em redor da viagem de bicicleta de Troia até Sagres parece não se desvanecer, sendo isso facilmente comprovado pela quantidade de participantes neste “evento” não organizado que logo pela “fresca” começam a pedalar rumo ao Sul do nosso país.
Para não fugir à regra, também a “Ó” DO VIDRO esteve presente com mais “força” sendo 6 os atletas com o “Ó” ao peito.
Eram eles o Nuno Portela que voltou a marcar a sua participação pela utilização de pneus cardados na Stumpjumper, o Gato que optou antes por montar rodas finas na sua, o Marco cujas pernas iriam pela primeira vez tentar pedalar ao longo de uma distância tão arrojada, o Tiago com a sua Canyon de pneus cardados (à semelhança do Nuno), o Lopes que que não dispensou a bike de estrada em detrimento da BTT e o Fernando!
É verdade, também o “Xôr Presidente” resolveu enfrentar o desafio de pedalar até Sagres, não com a sua Epic que o acompanha na maior parte das aventuras, mas sim com o antigo quadro rígido que pertencia ao Sérgio e onde também foram montadas umas rodas finas, sem dúvida a melhor opção para rolar tantas horas em alcatrão.
Além do Team do “Ó”, também o Pai do Marco, o Sr. Possidónio Graça, aproveitou a boleia e apoio do Fernando para participar pela primeira vez num Troia-Sagres aos comandos da sua bike de ciclismo. Quilómetros de estrada é algo que ele está bastante habituado a fazer e como tal resistência física é algo que não lhe falta, tal como os rapazes teriam oportunidade de ver...
Importa também realçar as presenças indispensáveis da Ana e da Nonô, que durante os 210 klms do percurso estariam sempre disponíveis para apoiar no que fosse preciso.
Tudo começou bem cedo na Amadora onde o Fernando apanhou todos os rapazes e o Pai do Marco, todos à excepção do Nuno que se juntou a eles em Troia, já que além do “Camião” da “Ó” DO VIDRO, a Nonô também levaria a sua carrinha pelo que eram dois os carros de apoio disponíveis.
Em Troia, enquanto se faziam os últimos preparativos e exercícios de aquecimento eram às dezenas os participantes que passavam já em alta velocidade pelos rapazes, todos aglomerados em verdadeiros “comboios” de bicicletas a fazer lembrar o pelotão de uma prova de ciclismo.
Embora esta “viagem” tivesse nascido de um desafio pessoal e até tenha um cariz de “passeio”, a verdade é que a componente competitiva tem vindo a ganhar cada vez mais importância existindo verdadeiros debates e comparações de tempos em fóruns e blogs após o evento, mas também durante o percurso existem verdadeiros “picanços” e até algumas “batotas” como apanhar “boleia” dos seus carros de apoio, seja agarrando-se aos mesmos, ou pedalando no cone o que faz com a exposição ao vento frontal seja substancialmente reduzida.
E vento de frente foi logo o que os rapazes começaram a sentir assim que arrancaram, com o Lopes Nuno Fernando e Tiago a tomarem a dianteira tendo o Gato, Marco e o seu pai ficado um pouco mais para trás.
Mas rapidamente algumas posições se inverteram pois o Nuno (possante como sempre) acaba por descolar pedalando fortemente logo seguido do Lopes.
Mas a culpa do Lopes ter arrancado é do Fernando...! É que na carrinha durante a viagem até Troia o Fernando “picou” o Lopes dizendo-lhe que 30m de avanço (o tempo que o Lopes deu ao Nuno em 2009) não era nada quando este utiliza uma bike de ciclismo enquanto o Nuno usa a Stumpjumper com pneus cardados, pelo que a diferença deveria ser de 1h30m. O Lopes não respodeu à provocação ficando apenas muito sério e pensativo como se tivesse de imediato começado a estudar a melhor forma de responder à provocação.
Seria então com acções porque os dois, Nuno e Lopes, desapareceram rapidamente no horizonte.
Farto de pedalar junto ao seu filho e vendo os dois rapazes do “Ó” desaparecer, o pai do Marco (talvez o melhor atleta do grupo) inicia a perseguição aumentando rapidamente a velocidade.
Criou-se então um grupo composto pelo Fernando, Tiago, Marco e Gato que haveria de pedalar em conjunto durante dezenas de klms.
Mesmo assim havia sempre tempo para algumas “brincadeiras” como apanhar os “TGV’s” repletos de bikes de ciclismo (começam a dominar o Troia-Sagres em detrimento das bikes de BTT) que eram bastante úteis para cortar o vento que insistia em não desaparecer e por vezes até aumentar.
A dureza do Troia-Sagres acaba por ser principalmente as longas horas em cima da bicicleta num percurso onde as subidas, mas também as descidas, são poucas.
Desta forma acaba por ser sempre necessário estar a pedalar existindo pouca margem para “descansar”.
O ritmo que por vezes também se torna elevado acaba por igualmente “moer” as pernas e o espírito, sendo este último muito importante.
Já um célebre cantor dizia “Quando a cabeça não tem juízo corpo é que paga...” e nestas coisas das bicicletas é algo particularmente verdadeiro, já que não só se pode facilmente cair na tentação de entrar em corridas desenfreadas que se vão traduzir num cansaço extremo uns klms mais à frente, como também pode acontecer o contrário, a mente focar-se na incapacidade em conseguir pedalar mesmo quando o corpo ainda tem energia.
Acabou por ser inicialmente esta última que começou a afectar o Marco que não tendo grande hipótese de treinar nas semanas anteriores, e sem nunca ter percorrido uma distância tão grande, estava cada vez mais a começar a ressentir-se dos klms acumulados.
O Gato, Tiago e Fernando impuseram um ritmo interessante e isso começou a entrar na cabeça do Marco enquanto este os acompanhava, pois na verdade não se deixava ficar para trás.
A via rápida até Sines é um dos locais mais aborrecidos do Troi-Sagres pois é longa, desinteressante e por vezes repleta de trânsito, mas foi lá que o Gato e o Tiago se integraram num grande pelotão composto essencialmente por elementos do Clube Cuba Aventura, parecendo verdadeiros forasteiros com a suas bikes de BTT.
Nessa altura tanto o Fernando como o Marco ficaram um pouco mais para trás mas mesmo assim pedalando forte klm após klm.
Foi aqui que a Ana e Nonô pararam para dar apoio tendo os rapazes aproveitado para reabastecer de água e comer alguma coisa, mas foi também nesse local que a cabeça do Marco o começou a “atacar” sendo visível no seu rosto algum sofrimento.
Bastante mais à frente o Lopes o Sr. Possidónio e o Nuno estavam “noutro campeonato” em que o Nuno possuia sem dúvida a arma menos adaptada para as condições existentes, já que uma Stumpjumper com cardados é bem mais lenta em estrada do que duas bikes de ciclismo, além do esforço extra que exige...
Mesmo assim, forte como sempre, o Nuno parcia estar “possuído” existindo relatos que indiciam a presença do mesmo no meio de grupos de ciclistas de estrada profissionais altamente treinados, havendo mesmo quem diga que a dada altura os deixou para trás...!!!
De facto trata-se de uma situação que ocorreu na realidade tendo mesmo havido uma tentativa de contratação para uma equipa Algarvia, divisão de Veteranos B, mas o Nuno manteve-se fiel ao “Ó” até porque o Algarve fica longe do Tribunal de Sintra onde desenvolve muito do seu trabalho...é que ainda não dá para sobreviver das bikes...!
No entanto, talvez o esforço dispendido que acabou por dar nas vistas tenha sido demasiado, afinal ainda faltavam alguns klms.
Mais atrás e precisamente após terem sido percorridos 100 klms, o Gato e o Tiago fazem uma pausa à espera do camião do “Ó” guiado pela Ana o qual lhes traria a desejada sopinha de recuperação a qual os iria preparar para os 100 klms que ainda faltavam para o final.
Menos animado com essa distância vinha o Marco o qual se encontrava já em esforço. Tantos klms já eram demais e os 100 que já estavam feitos não tinham corrido mal e como tal, era altura de parar! A Cannondale seria arrumada na carrinha e o Marco já não iria pedalar mais naquele dia.
Embora estivesse até bastante “fresco”, o Fernando resolve também parar por ali após a sopinha. Era tempo de embarcar na carrinha e ir dar apoio a quem precisasse.
E quem parecia precisar era o Pai do Marco!
Tenho pedalado muito forte desde o início, ele caba por ficar literalmente fora do alcance da carrinha a qual estava agora parada ao klm 100, enquanto ele estava uns bons 40 klms mais à frente e bastante esfomeado!!~
O Fernando, Ana e Marco arrancam na tentativa de o alcançar enquanto que o Gato e o Tiago voltam às suas montadas começando logo a pedalar num ritmo forte! Sagres era quase ali...!
Apesar dos esforços a carrinha de apoio já não alcança o Sr. Possidónio que entretanto consegue água junto de uns caçadores, mas apanha o Lopes que algures no meio do caminho já ia mais branco do que as marcações pintadas no alcatrão da estrada....!
Afinal de contas também ele ainda não tinha tido qualquer apoio pelo que as barras energéticas já se tinham acabado e a água também já andava pelos mínimos!!
Enquanto isso o Tiago e o Gato embrenharam-se num pelotão de bikes de estrada tendo rolado durante uns 20 klms a cerca de 38 klms/h, uma velocidade que o Tiago estava a conseguir rolar por estar perto do limite, pois “puxar” por uns pneus cardados e ainda ir a registar o momento com uma pequena camera montada no guiador torna-se muito mais difícil do que pedalar com bikes “fininhas” que estavam completamente no seu habitat natural.
Mas eles estavam endiabrados e não tardaram a deixar o grupo para trás, não sem antes o Tiago quase ter deitado um dos elementos do pelotão abaixo ao distrair-se e ter roçado com o seu pneu na roda traseira do mesmo!
Deitando por reflexo as mãos aos travões, o Tiago desencaixa o pé esquerdo e quase cai da Canyon ficando practicamente sentado no quadro enquanto “patina” com esse pé na estrada, ganhando depois equilíbrio para se voltar a montar normalmente! Quase não perde velocidade e ninguém acaba por cair...mas ainda assim um grande susto.
-“Se cai um cai todos!” – constata um dos ciclistas num sotaque brasileiro.
E tinha razão, a coisa poderia ter corrido mal!
Esse grupo só os voltaria a passar mesmo à entrada de Sagres uns 40 klms mais à frente.
O vento frontal continuava impiedoso, mas pedalada após pedalada Sagres ficava mais perto.
Na frente não havia grande história...ou talvez tenha havido.
O Pai do Marco chega rapidamente a Sagres com uma energia e rapidez brutal conseguidas com os seus mais de 50 anos, tendo o Lopes chegado apenas 5m depois.
E o Portela? Pois bem o Lopes tinha ficado mesmo a pensar naquilo que o Fernando lhe havia dito na carrinha e como tal não se poupou a esforços para que pelo menos fossem 60 os minutos que ficaria à frente do Nuno, mas acabaram por ser mais.
Chegados a Odeceixe, na fronteira entre o Alentejo e o Algarve, o Gato e o Tiago fezem mais uma pequena pausa junto ao Fernando, Marco e Ana.
-“O Portela vai já aí à frente não tarda nada vocês apanham-no.” Diz o Marco.
O Tiago responde que dificilmente isso vai acontecer porque o avanço que este lhes tinha dado logo nos klms iniciais deveria ser enorme e eles apesar de estarem a andar forte não estavam com intenções de o apanhar.
-“Queres apostar? Aposto 50€!” – Diz o Fernando.
E ainda bem que não apostaram porque a vontade de chegar a Sgres impeliu-os a manter e por vezes aumentar o já elevado ritmo que traziam, e foi no Rogil que acabaram por encontrar o Nuno.
Este encontrava-se a fazer uma pausa e ganhar energias junto da Nonô e também do Fernando que o econtrou após este ter deixado o Gato e o Tiago para trás depois da pausa de Odeceixe.
No entanto o Tiago e o Gato já tinham decidido que não iriam parar mais até Sagres...estavam tão fartos daquele caminho interminável que só já queriam parar no fim!!
E assim foi após terem cruzado a Serra da Carrapateira (um obstáculo de respeito a enfrentar com uma elevada quilometragem nas pernas e já quase a chegar ao final) e a aborrecida via rápida até Sagres, onde é possível ver ao longe a tão desejada Vila mas a qual parece nunca mais acabar...!
Chegaram ainda de dia e foram até junto do forte como manda a tradição.
À sua espera encontravam-se já o Pai do Marco e o Lopes que já tinham chegado à cerca de 1h, e o Fernando, Marco e Ana que tinham seguido com a carrinha à frente dos rapazes a seguir ao Rogil.
Um pouco mais tarde chega finalmente o Portela acompanhado pela Nonô que o seguia na carrinha. Já tinha caído a noite, este Troia-Sagres tinha sido duro.
Foi uma edição difícil, todos os anos este “passeio” apresenta algum tipo de dificuldade e este ano sem dúvida que tinha sido o vento que se manteve quase sempre forte e de frente obrigando a que até mesmo nas descidas tenha sido necessário pedalar para não pedalar, e isso tornava a tarefa de relaxar um pouco de quando a quando quase impossível.
Mas tudo correu sem grandes problemas e o Marco já prometeu que para o ano chega sem qualquer problema ao fim, mas este ano foi um teste e sem dúvida uma aprendizagem!
O Portela ficou no Algarve para o fim-de-semana enquanto que o restante grupo arranca rumi a Lisboa.
Pelo caminho muitas eram as luzinhas que ainda se viam na estrada pelo meio da noite cerrada! Ainda haviam muitos aventureiros a pedalar de forma incansável até Sagres...o importante é chegar!
Quem do grupo da “Ó” DO VIDRO irá para o ano? Só o tempo o dirá!! |